Em 18 de Janeiro, o mundo homenageia a visão de Martin Luther King de construir pontes em meio às divisões raciais.
Era uma visão também no cerne da obra de Frank Buchman, fundador de IdeM (então conhecido como Rearmamento Moral) que continua até hoje, principalmente através do programa de IdeM Esperança nas Cidades.
Na ocasião, o ex-chefe da redação, editor e colunista do jornal Cincinnati Enquirer de Washington, Robert Webb, compartilha a história de como a mensagem Buchman cravou uma estaca em seu próprio coração "racista", alterando dramaticamente a sua vida e seu jornalismo. Webb nasceu e foi criado no Mississippi - descrita por King como um estado que transpira com o calor da injustiça. Webb, desde então, dedicou sua vida a realizar o sonho de Martin Luther King de um país transformado num oásis de liberdade e justiça.
King teve muito de sua inspiração e da teoria da não-violência através da "força da alma" de Mahatma Gandhi. Continuando seu legado, o Ano Novo começou com uma visita à Índia pelo Dr. Otis Moss, amigo e colega de King e, agora, membro do conselho consultivo do presidente Obama em parcerias locais baseadas na fé. Rajmohan Gandhi, Presidente de IdeM, descreve a visita do Dr. e Sra. Moss, que começou com um retiro em Asia Plateau, o centro de conferências de IdeM na Índia. Leia mais aqui
E Neichu Angami, uma especialista em HIV-Aids do nordeste da Índia, dá suas reflexões sobre o retiro. Leia mais.
Enquanto isso, a luta contra o racismo continua a ser um problema na Austrália. Mike Brown, um australiano que viveu por muitos anos na Índia, escreve sobre as atuais tensões entre os dois países. Leia mais.
Essa história de Bob Webb é um trecho do capítulo 11 do livro “O Legado de Frank Buchman”. Durante anos ignorei o mal brutal da áspera sociedade segregada em torno de mim. Como uma criança do extremo Sul, nascido e criado no Mississippi, não me incomodava que escolas, salas de repouso, bebedouros e bairros fossem segregados, que os negros deviam "saber seu lugar" e permanecer lá. Não me incomodava que a maioria dos trabalhos lhes fosse negada. O "jeito de viver do Sul" foi o meu sangue, mas eu necessitava muito uma transfusão.
Bob Webb
Não admira que, como jornalista lá em meados dos anos 1950 sucumbi à voz dos que militantemente foram contra o Supremo Tribunal dos EUA em 17 de Maio de 1954 à decisão que proíbe escolas segregadas. Como editor associado do State Times em Jackson, Mississipi, escrevendo editoriais e colunas, eu era o fervoroso canalizador da visão tradicional da região sobre a questão da raça.
Todo o tempo eu me considerava cristão. Mas a transformação que eu tanto precisava veio depois que eu aceitei um convite para participar de uma conferência do Rearmamento Moral em 1957 na Ilha Mackinac, em Michigan. Lá eu ouvi histórias de vidas revolucionadas quando homens e mulheres ouviram à sua voz interior e refletiram sobre o seu passado e presente de acordo com os padrões morais absolutos de honestidade, pureza, altruísmo e amor. Fiquei profundamente comovido. Essas pessoas tinham algo que eu queria.
Uma tarde vi o filme “Liberdade”* - escrito por africanos - que estava a cravar uma estaca em meu coração racista. Quando o filme acabou, eu sabia que tinha de pedir desculpas ao primeiro homem negro que visse, pela forma como era tratada sua raça no Sul. Quando isso aconteceu, o primeiro homem foi um africano de meia-idade. Ele tinha um rosto que mostrava uma grande sabedoria. Pedi desculpas e nunca esquecerei a sua resposta: "Após o pedido de desculpas, o quê ?". Eu tenho tentado responder a essa pergunta desde então.
Antes de sair da Ilha Mackinac, sentei-me com os 4 padrões morais. Uma série de erros que eu tinha cometido veio à mente. Entre eles: erros na escola, erros na minha prestação de custos como repórter de um jornal de Nova Orleans, e o mau uso da câmara escura de minha cidade natal onde eu semanalmente trabalhei um verão. Além disso, eu maliciosamente ataquei, de forma impressa, o editor do concorrente jornal da tarde em Jackson. Até mesmo cometi delitos que penso ter violado a lei federal. Eu fiz a restituição da melhor maneira possível.
Quando eu confessei meu engano para a diretora do meu colégio, ela me convidou para falar a uma assembléia estudantil. Após uma introdução brilhante pelo superintendente da escola, me levantei e disse: "Estou aqui porque cometi um erro no ensino médio”, e então falei da resposta que eu tinha encontrado. Eu reembolsei o jornal de Nova Orleans que, por sua vez, doou fundos para o RAM.
Uma das minhas tarefas mais difíceis foi a confissão que eu tinha de fazer ao Procurador dos EUA em Jackson. Felizmente, ele não me processou. E, maravilhosamente, cada ato de restituição trouxe uma libertação interior de alegria indescritível. Com esta experiência, eu sabia que Deus sempre me guiaria se eu ouvisse e obedecesse. Um dos primeiros pensamentos que eu tive depois de deixar a Ilha Mackinac era de escrever a um colega sulista - Dr. Martin Luther King Jr. Ele respondeu rapidamente, com uma bela nota.
É evidente que minha vida mudou radicalmente. Eu tentei dar aos leitores a visão de um EUA como modelo para todo o mundo, de como as pessoas de todas as raças e origens poderiam trabalhar em conjunto. Eu falava e escrevia para curar e não para ferir, para unir e não para dividir. Alcancei afroamericanos como nunca antes. O inesperado fechamento do State Times em 1962 levou-me em 1963 a Cincinnati e a uma nova frente crucial na batalha por um mundo novo.
Superando um profundo desespero
Minha visão ampliou-se rapidamente com aquela transformação pessoal. Na Ilha Mackinac, vislumbrei um mundo novo que se estende muito além do Sul com todo seu tumulto. Mas essa visão mais ampla também fez mais clara a minha visão para o Sul. Com amigos da mesma forma empenhados em Mississippi, começamos a buscar a sabedoria interior para o que fazer. Como poderíamos fazer a diferença? Por um lado, nós trouxemos a Jackson o filme “Liberdade”, que transformou meu coração e minha mente. Da mesma forma pedimos a ajuda de outros, incluindo Bremer Hofmeyr, um antigo acadêmico de Rhodes, e sua esposa, Agnes, da África do Sul, que atuaram ao lado do trabalho de Buchman. Combinamos uma exibição privada do filme “Liberdade” para o governador James P. Coleman. Bremer apresentou o filme com a história comovente de como o pai de Agnes, um agricultor do Quênia, tinha sido enterrado vivo pelos Mau Mau, ao rebelar-se contra o governo colonial e de como ela havia superado seu profundo desespero, prometendo o mais difícil trabalho de responder à amargura e ao ódio, onde quer que exista. Coleman ficou impressionado com Hofmeyr como tendo "algo a dizer" no momento em que abriu a boca. Juntou-se a Bremer, Agnes e seus amigos para o almoço após o filme e pediu que ele fosse mostrado aos membros da assembléia estadual. Assim foi.
Mas os fortes ventos de resistência ao decreto do Supremo Tribunal em 1954 estavam soprando em 1957. Little Rock, capital do estado de Arkansas, se tornou o centro da tempestade, quando em 25 de setembro o presidente Dwight Eisenhower ordenou que o Exército escoltasse 9 estudantes negros através de uma multidão enfurecida na Escola de Ensino Médio Central. Mais cedo, um juiz federal ordenou a sua admissão, mas em 20 de setembro o governador Orval Faubus usou seus soldados da Guarda Nacional não para garantir a sua entrada, mas para mantê-los fora. O prefeito de Little Rock, Woodrow Mann, enviou um telegrama ao presidente Eisenhower 4 dias depois para pedir tropas federais para manter a ordem.
Comparado a algumas partes do Sul, Arkansas havia sido um relativo oásis sobre a questão da raça. Já em Setembro de 1949, por exemplo, a Escola de Direito da Universidade de Arkansas foi racialmente integrada. Em Janeiro de 1951, a Biblioteca de Little Rock abriu suas portas aos negros. Então não foi muito surpreendente que a Escola de Little Rock dissesse, 5 dias depois do Supremo Tribunal, que iria cumprir a decisão de dessegregação.
Mas Faubus colocou-se abertamente contra a Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor (NAACP) e à sua presidente da divisão de Arkansas, a senhora L. C. (Daisy) Bates, juntando-se àqueles de forte oposição à integração. Ele convocou uma sessão especial da legislatura, em agosto de 1958 para aprovar uma lei que lhe permitia a locação de escolas públicas para empresas privadas para escapar do mandato federal. No mês seguinte, 7561 cidadãos do Arkansas votaram a favor e 129470 contra a dessegregação. As escolas secundárias públicas em Little Rock foram fechadas, deixando 3698 alunos levados à própria sorte.
Little Rock ganhou rapidamente a atenção global como um apoio à desobediência. Mas alguns poucos da cidade encontraram seu caminho para o centro da MRA na Ilha Mackinac. Eles voltaram determinados a trazer um novo espírito para a cidade e estado. Mas se Little Rock se tornasse um símbolo de desobediência também seria a faísca para uma crescente onda de esperança nos EUA, como catalisador para a peça “A Experiência Culminante”**, e filmes subseqüentes com o mesmo título.
* “Liberdade” foi um longa-metragem com base numa peça escrita em 1955 por africanos inspirados por IdeM. Ele falava de um país africano emergente no caminho da independência, gravando vivamente as reações insensíveis do governador colonial e as intrigas e contra-intrigas dos políticos que representam diferentes tribos e facções. A liberdade é alcançada quando uma mudança de coração ocorre ao governador e a alguns dos líderes africanos.
** “Experiência Culminante” conta a história da educadora e líder dos direitos civis Mary McLeod Bethune, cujos pais haviam sido escravos.